Entrevista com Elpídio Rocha

Graduado em Jornalismo pela UFMG, hoje coordenador do curso de Comunicação Social da Funorte, têm experiência em jornalismo, cinema, quadrinhos e educomunicação, nos concedeu uma bela entrevista para falar de carreira, comunicação, e sobre o projeto Cinema Comentado em que é Presidente. Elpídio também foi idealizador do I Festival de Cinema de Montes Claros em 2007.

Porque você escolheu o curso de comunicação social?

Jornalismo. Foi a necessidade de aprimorar certa capacidade de escrita que eu já tinha desde ensino básico, do ensino fundamental e dentro das opções que são oferecidas, o jornalismo foi o que mais me atendeu, porque a escrita tem um papel extremamente importante na transmissão da informação, do conhecimento e o jornalista tem que produzir sistematicamente, você tem que cumprir prazos, então foi isso que me atraiu para fazer o curso, isso que me levou para o lado dessa profissão.

Você recebeu apoio dos familiares na sua escolha?

Na realidade, meus familiares ficaram um pouco assustados, eles queriam que eu fizesse o curso de medicina, isso foi em 1986, então aqui em Montes Claros, não existia a Unimontes, existia a faculdade de medicina, faculdade de filosofia e faculdade de direito, então eu fiz o vestibular na faculdade de medicina, fui aprovado, fiz o vestibular de jornalismo na UFMG, fui aprovado, cheguei para minha família e falei: já passei em medicina, já passei em jornalismo, vou fazer o curso de jornalismo, depois se tiver vontade continuo fazendo outra coisa. Eles concordaram.

E o curso correspondeu a suas expectativas?

Nenhum curso superior vai atender às expectativas do aluno. A gente trabalha com a perspectiva de que se o curso for muito bom, você vai ter um aproveitamento, que vai depender também muito do esforço, de 50 a 70 por cento do que é passado, porque as estruturas das instituições têm que ser aprimoradas continuamente, então você nunca vai achar uma instituição que seja, assim, perfeita. A UFMG sempre foi uma das melhores faculdades para se fazer comunicação social em Minas Gerais e no Brasil. Na época que eu fiz vestibular, era o segundo curso mais concorrido, só perdia para uma invenção daquela época, era Ciência da Computação. A federal sempre teve uma estrutura muito boa na questão da formação humanista da pessoa, ou seja, você tem uma visão de mundo muito consistente, até porque a orientação era mais marxista, porque era 86: redemocratização do Brasil e avaliação do que foi o ultimo regime militar, essa coisa toda, e a UFMG, especificamente na área de escrita, sempre foi muito boa, a parte de TV era fraca, até porque não tinha equipamentos, as faculdades federais estavam se readequando, não existia informática, o computador só vai entrar nas redações dos jornais com força a partir de 1990, a parte de rádio também era muito boa, mas a melhor parte era o impresso, e era o que me interessava, então para mim ele atendeu de 60,70 por cento perfeitamente o que eu queria.

Você considera o curso de comunicação uma oportunidade de conhecer outras áreas, porque ele vai da sociologia ou jornalismo, foi uma oportunidade abrangente, ou você escolheu porque já queria a escrita, no caso?

Não, o curso de comunicação ele tem uma função generalista, a pessoa tem uma compreensão de mundo do mais amplo possível, com uma fundamentação nessa amplitude. Você tem que ter essa percepção do que é política, sociologia, história, geografia, como optei por ciências humanas, a minha área de preferência sempre foi história e geografia e no caso português, que é fundamental para qualquer curso daquela época até hoje, então ele me atraiu por essa perspectiva de você pode fazer uma leitura de mundo amplo. É um conceito que mantem a profissão até hoje, quanto mais ampla a sua visão, mais interessante, não só no jornalismo, mas nas outras relações também publicidade, relações públicas, cinema que estão ligados à Comunicação Social.

Qual a maior vantagem da profissão?

A maior vantagem é a perspectiva de leitura do mundo, é você entender o que está acontecendo e ter acesso à informação, eu acredito que informação é poder, então quanto mais você sabe mais você entende o que está acontecendo e mais você pode exercitar o poder de transmitir essa informação, mas não é a ideia de que você sozinho vai mudar o mundo, você vai conseguir mudar a si mesmo e algumas pessoas que estão a sua volta.

Quais foram ou ainda são as maiores dificuldades da profissão?

As maiores dificuldades ainda são a defasagem tecnológica, você nunca vai conseguir ter um acesso extraordinário a equipamentos, porque a mudança é muito rápida. Sempre você vai ter que correr atrás para poder superar isso, a questão tecnológica que é fundamental a comunicação, não é exigência fundamental que a pessoa entenda da tecnologia, você tem que saber produzir conteúdo, você vai usar plataformas diferentes para produzir esse conteúdo, essas plataformas podem ser internet, rádio, televisão, jornal impresso. Você precisa saber produzir conteúdo e entender como o equipamento funciona, a câmera que eu usei a dois anos, a que eu uso hoje e a que estou usando daqui 2 anos, a base é a mesma, se eu sei ligar, desligar, enquadrar, filmar, editar, não tem problema, o que vai mudar é que o programa que eu vou usar daqui a 2 anos vai ser muito mais rápido do que o programa que eu uso hoje, que é muito mais rápido do que o que eu usei há 2 anos.

Você acredita que exista um pré-requisito para a pessoa entrar na área de jornalismo?

Nós fizemos um encontro de jornalistas em assessoria de comunicação em Caxambu, foram vários palestrantes, um deles se chama Luiz Gonzaga Mineiro, ele é um jornalista que passou pelo rádio e pela tevê, trabalha com internet e foi um dos responsáveis pela implantação da TV alterosa em vários estados no momento em que o Silvio Santos estava investindo, principalmente, em jornalismo, então ele falou que para fazer jornalismo você tem que gostar de ler, gostar de escrever e você tem que ser um tanto quanto meio comunista, porque você vai ter que desconfiar de tudo, você nunca deve aceitar a primeira versão, se não souber desista. Saber ler e escrever que você aprendeu com a tia no primário, lá com a professorinha do maternal, lá com o pré-vestibular, não vai ser na faculdade que você vai aprender, você vai aprimorar, se você não souber, não mexa com isso. Tudo que o pai e a mãe falam são importantes, mas você tem que entender que o que o pai e mãe falam representa o que eles pensam, talvez não seja o que você pensa, também não quer dizer que o que você pensa seria o correto. Desconfie, isso é fundamental, além de saber ler e escrever.

Em sua opinião, qual a importância da área de comunicação na sociedade atual?

A comunicação é a informação, informação é poder, quanto mais informada a pessoa estiver mais ela vai entender o que acontece a sua volta, a informação está na base, em qualquer coisa que a pessoa faça, nas coisas mais simples, estou dentro da sala de aula eu preciso saber como a Europa funciona, porque se o euro acabar, em que isso vai afetar no Brasil? Vai afetar o Brasil de forma macro porque a economia brasileira vai perder um consumidor e isso vai afetar desde a mim, que de repente trabalho escrevendo jornal e o jornal vai diminuir assinatura até aquela pessoa que trabalha na fábrica e o dono vai chegar e falar: quebrou a Itália, não vamos mais vender para ela, nós temos 50 funcionários e vamos demitir 25, vamos demitir os 25 mais novos ou os 25 mais antigos? Como hoje você vive em uma sociedade que há informação a todo o momento, principalmente por causa da internet, da propaganda, rádio, tevê na internet, todo esse processo macro, rádio na internet, alguém tem, de certa forma, que fazer um filtro, o jornalismo é isso, é você pegar o máximo de informação, passar esse máximo de informação da melhor maneira possível, para um número maior de pessoas, decodificar para que elas entendam. Se elas vão mudar por causa disso ou não, já não é papel seu, que ela tem direito de receber essa informação da maneira mais clara possível, tem sim. E você como jornalista, um dos seus deveres é esse.

Com o enorme leque de opções que tem as áreas de trabalho, o que você diria para um aluno que quer seguir esse curso?

É a questão de você trabalhar com a multimidialidade, a plataforma do futuro é a internet, ela de certa forma é uma soma de tudo aquilo que tem no impresso, no rádio e na tevê, então é lidar com o que será a internet daqui um tempo, como é que a informação do rádio, da tevê, do impresso pode ser aplicada da melhor forma na internet. Não existe mais aquele momento: eu abro meu computador só para mandar e-mail, eu não faço a mínima ideia do que são redes sociais. Você pode até não estar nas redes sociais, mas você tem que saber que isso existe, então é essa questão de preparar para essa multimidialidade, esta mistura geral que a web oferece, lembrando que a base de tudo é a capacidade de ler e de escrever, quando eu digo escrever não é simplesmente o texto impresso, escrever, por exemplo, um texto de rádio, saber que o texto de rádio precisa mais da voz, tevê precisa da imagem, o texto da internet hoje vem com a ideia do hipertexto, que você clica na palavra e te leva num link e te abri outra opção, e se você clicar em outra palavra vai abrir outro texto, e de repente seu texto inicial está aqui e você está a 10 textos distantes, a amplitude, essa diversidade, esse hipertextualidade, é o que a internet oferece.

Você é coordenador e Palestrante do Cinema Comentado, você foi convidado pela prefeitura ou é um projeto seu?

O Cinema Comentado ele surgiu em 2003, foi criado por um estudante de ciências sociais, de sociologia, chamado Fernando Rodrigues, foi o Fernando e a namorada dela, que se chamava Ludmila, ele não são mais namorados, mas ela ainda se chama Ludmila, não mudou de nome (risos). Ele trabalhava com assessor do Sued Botelho, nessa época vereador, e naquela verba parlamentar que eles têm direito, o Sued que sempre teve ligação grande com cinema, ele e Aroldo Pereira tentaram fazer o Cineclube em Montes Claros, lá nos anos 80, perguntou para o Fernando como fazer algum projeto ligado a cinema, o Fernando tem uma coleção particular de uns 500 VHS, fitas de vídeo antigas, e mais uma grande quantidade de DVDs também, mais atuais e ele propôs para fazer sessões para exibir os filmes e depois comentam com a plateia os filmes e deixem que as pessoas falem com uma perspectiva de Cineclube, o Sued liberou a verba para comprar o projetor e a tela e o Fernando começou a fazer essas sessões na Câmara de Vereadores de Montes Claros, em 2004 ele me convidou para participar do projeto, discutir os filmes e junto à plateia, e comecei a trabalhar com ele desde então. Nós ficamos fazendo sessões na câmara até 2005, foi quando o Athos e o Sued foram eleitos prefeitos e vice-prefeitos de Montes Claros, em meados do ano esse projeto foi encampado pela secretaria de Cultura, nós saímos na câmara de vereadores e passamos a fazer sessões na sala Geraldo Freire, que fica ao lado da câmara, desenvolvemos esse projeto até o final do governo do Athos e do Sued em 2008, com o final do governo, com a mudança de prefeito, o projeto foi desligado da secretaria de cultura, e o uso da sala Geraldo Freire se tornou mais complicado pelas mudanças políticas.

Com o final de 2008, o projeto se desvinculou da secretaria de cultura e fizemos uma parceria com o SESC, as sessões hoje acontecem na sala de convenções do SESC, todos os sábados às 19 horas, que é o horário que fazemos as sessões desde 2003, o projeto continua firme e forte dentro dessa perspectiva. Em 2009 o Cinema Comentado virou uma associação cultural na qual o Fernando foi o primeiro presidente e eu fui o diretor administrativo, agora em 2010, 2011, teve uma nova eleição e eu assumi o cargo de presidente da Associação Cinema Comentado, o Fernando se tornou responsável pela programação e existem mais 6 pessoas que participam do projeto com a gente. O projeto a função dele é basicamente valorizar o cinema Brasileiro, oferecer para o espectador, um tipo de filme diferente daquilo que se vê no shopping ou que você vê na televisão, e estimular a produção de filmes, a pessoa entender que ela pode pegar uma câmera, a partir do momento que se tem uma noção cinematográfica, fazer filme, claro que no primeiro momento vão ser mais audiovisuais que propriamente filmes, mas o projeto se encora nesses três objetivos. A discursão do filme depois que acaba a sessão é algo que já se faz no país desde anos 80, então nós só estamos desenvolvendo um projeto com a especificidade do norte de Minas, realizado em Montes Claros.

O que tem de mais positivo no projeto?

A questão de você perceber que o cinema brasileiro é excelente, tem filmes brasileiros que são absolutamente brilhantes e você não tem acesso pela questão política, um filme americano dá muito mais dinheiro, a cópia do Amanhecer são 500, no Brasil são 2 mil cinemas.Como você vai publicar seu filme? 500 pastas passam os vampiros, 300 cópias passa O Gato de Botas, as outras salas estão passando Happy Feet, onde vai entrar um filme brasileiro? Então é o que você chama de conquistar espaço e para isso tem que mostrar que o cinema brasileiro tem qualidade, que não é só filme de sexo, violência, palavrão. O preconceito está na cabeça das pessoas, não só no Brasil, mas em todos os países tem esse preconceito, outra questão é desenvolver uma discursão, é a pessoa perceber que ela pode falar: gostei do filme por causa disso, não gostei por causa disso, eu não entendi aquilo ali, eu entendi, só não tinha coragem de dizer e estimular mesmo a produção, os objetivos dele são isso: divulgar conhecimento e estimular a produção, esses são os pontos principais.

Para você quais são as maiores produções do cinema brasileiro, até hoje?

O cinema brasileiro tem coisas fantásticas. “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dos anos 70 é espetacular. “O Auto da Compadecida”, “Tropa de Elite II” ,“Chico Xavier” é interessante o diálogo que ele faz com o público, “Se Eu Fosse Você”. Eu particularmente gosto de filmes que se colocam foram daquele esquema mais tradicional, de historiazinha com início, meio e fim, certinha, e outros filme que provocam muito mais o expectador. Então eu prefiro muito mais um “Tropa de Elite II”, “Cinema, Aspirina e Urubus”, “O Céu de Sueli”. Agora o filme brasileiro que eu, particularmente, acredito ter um efeito muito grande é “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe” do Glauber Rocha e alguns documentários “Jogo de Cena”, “Santiago”, eu gosto muito de filme documentário, é uma coisa maravilhosa e toda vez que a gente exibe no Cinema Comentado, traz uma discursão muito importante. Eu ainda acho que o filme melhor é aquele que eu ainda vou assistir, embora tenha assistido muita coisa boa, o que tiver que surpreender ainda vai ser o melhor. Então hoje seriam esses, pode ser que amanhã já tenham mudado.

Há novos planos de projetos futuros?

Em relação ao cinema comentado a gente tem um mostra de cinema sobre o sertão aprovada pelo fundo estadual de cultura, então o governo libera dinheiro para fazer essa mostra, ela vai acontecer em abril ou junho, é só uma questão de formatar a data, de 2012, tem algumas oficinas de capacitação que devem acontecer paralelas a essa mostra e o Cinema Comentado, todo sábado às 19 horas até o dia 17 de dezembro, temos um recesso e depois voltamos no final janeiro, sempre com filme que provocam discursão e também filmes muito interessantes para as pessoas assistirem.

 

 

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